...Semeando Palavras... (por Katheryne Nazer)


*Vovó*

Queridos amigos e leitores: republico poema postado em março de 2007 quando minha amada vovó Edith completara 90 anos. Ela partiu no último dia 23.

 

*Vovó*

Hoje o dia acordou mais cedo e calmo

para contemplar-te mais, creio eu;

e ler, delicadamente, as linhas de teu rosto

que ensinam mais a viver que minha própria vida.

 

E com este convite,

iniciado há noventa anos,

deixo-me seguir por suas finas mãos

de pele rosada e alvejada pelo tempo árduo.

 

Sigo seu compasso, tal qual bailarina,

- não tenho medo -  quando teus olhos me fitam,

eis que já viram tanto e compreendem mais do que penso -

sou apenas uma semente diante do seu grande amor.

 

Hoje o dia amanheceu como um só a mais, teu,

um a menos, meu, do que amanhã restará

dos seus bolinhos, bênçãos e orações,

mas sabendo de sua eternidade, marcada pela sua força, tranquilizo-me em seu ventre.

 

Novamente.

 

 

A imagem que fica da Vovó Edith (*03/03/1917 _ + 23/12/2010)

*Legenda da Foto - Vovó e seus sete netos.

1.Fabiano; 2.Katie; 3.Gisleyne (Gegê - minha irmã); 4. Vovó Edith; 5. Juliana; 6.Katheryne (eu) 7.Camila e 8.Daniel




Escrito por K.N. (Kathy) às 16h43
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*sobre(tudo)*

Você vai se lembrar do seu café amargo. E do meu com adoçante. Como quem se recorda do dia-a-dia ao roer as unhas. E vai tecer comentários odiosos sobre o que poderia ter sido. E já foi.

Nada mais que isso. "Cotidianidades". Palavras, piadas e afins.

Ah! vai se lembrar do perfume, do que você me deu e do vidro que se rompeu, cortando-lhe a mão e as possibilidades. Cinestesias. Apenas. Aromas, gostos e afins.

Eu vou me lembrar daquela música. Sabe, aquela? E da letra tão perfeita para cada lance, imperfeita para ser cantada hoje. Reminiscências. Só. Memórias, presságios e afins.

Sim. Não esquecerei das comidas, cardápios prontos. Das refeições que fizemos e deglutimos o futuro e passado. Presentes dos dias. Isso. Alimento para as sensações e afins.

Não iremos nos esquecer do supermercado, da marca do cigarro e do xampu. Nem dos churrascos, nem das famílias e amigos.Telefonemas e mensagens. Coisinhas reais. Cartão de crédito de convivência e afins.

Talvez nos esqueçamos das brigas e seus motivos. Dos desacertos provocados por terceiros ou não. Mas, nos lembraremos das promessas e ameaças de estarmos juntos. Pra sempre. Coisas de amor, paixão e afins.

Diante de tudo o que passou, saberemos o que restou. Os olhares e tremores. Os beijos e separações. Os enlaces e rompimentos. O que "poderia ser" e não poderá mais. Eternidade. Mundo inteiro em nós. Verdades e afins.

Entre tudo e todos, seremos apenas nós. Com lembranças e esquecimentos, diante da fugacidade de cada dia da semana. E finais de semanas intermináveis. Apenas retratos inconscientes do que seria o amanhã. Vida. Incongruências e afins.

E hoje, passamos a limpo dez anos em um dia. Ficam as frases e desejos. Os sonhos misturados à realidade. Restam as emoções desarrazoadas. E razões plenas de amor. Sobram os originais de cada um. Vão-se os rascunhos de nós e afins.

 

Lace

William Henry Fox Talbot (British, 1800-1877)

1840s. Salted paper print from a paper negative, 9 1/16 x 7 3/8" (23 x 18.8 cm). Lois and Bruce Zenkel Fund


“E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia." (Clarice Lispector)




Escrito por K.N. (Kathy) às 12h31
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*sonhos - os seus (carta para N.D. - Diretora de Teatro e de sonhos)*

 

Você, querida, gosta quando eu falo de sonhos. Mesmo que eu não tenha qualquer habilidade ou habilitação pra falar sobre o assunto. Sou insone desde a adolescência. Falo mesmo do “sono”, da vontade de mantê-lo – hoje sem remédios e muita, mas muita mesmo,  meditação e alguma fé -  crença renovada diariamente de  que “esta noite eu vou dormir”.

Mas, quando você fala do sono com “h”, ele cresce, ganha uma letra e muitas cenas. Como essas que você pare por inseminação artificial. Faz nascer através da palavra falada - e sentida o que é a vida. Em palavras e em atos. Você sonha. Ponto. Fato. E realiza. Ponto final.

É por isso, talvez, que goste de ver escrito o que imagina. O que há no seu mundinho, no interior de seus pensamentos. Reflexão narcísica de você, oras.

Ainda assim, falar de sonhos é conjugar, pra mim mesma, todos os tempos do verbo existir. E, sendo assim, acordada mesmo. Preenchendo a realidade de fantasia.

E aí cabem todas as risadas largas, os sorriso discretos, os choramingos, as lágrimas grossas. Entram também as confidências, coincidências, passado-presente-futuro. Entram flores, cartas e mimos. Telefones, telefonemas, cachorros e famílias. Pão com manteiga, fondue, churrascos. Ir e vir. Acerto e erros. Breguices glamurosas. Verdade... muita verdade. Overdose de vida!

Tudo é possível. Passeios de balão. Viagens, saraus. Mãos suadas. Sarcófagos e história.

Língua portuguesa também, sim, muito dela. “C”’s mudos. Menos o da Lispector.

Está aí - é bom escrever sob sua inspiração. É seguro , certo o destino dos devaneios. Repousa em você o porto seguro da criação e da minha criatividade.

E, como fãs recíprocas, crescemos, egos inflados de afeto.

Ah! Verdade, você queria mais sobre sonho!!Quase me esqueci que esse era o mote.

Pois bem.

Sonho. Substantivo significativo de desgarrar os pés do chão. Sobrevoar a realidade. Paixão é um exemplo de sonho. Voar também. É esse o sonho de que precisa??

Ou quer mesmo por escrito, à mão, o sinônimo da existência humana de fugir do mundo em átimos de segundo, pelos possíveis desejos e impossíveis transgressões?? Não, não é esse, ainda..

Querida, o sonho tem a ver contigo, com a iluminação dos seus olhos sobre o dia a dia. Sobre o poder de transformação do cotidiano, sobre a capacidade de realização - essa você tem de sobra. E é sobre isso o que mais gosto de escrever. Sabia que esse é o sonho da  maioria das pessoas? Pessoas que não conseguem escapar de sua própria realidade, nem para serem felizes. Aprisionadas em si e em seu mundo de faz-de-conta, esquecem-se de sonhar e por isso de realizar também. Mas esse é outro assunto. Não o seu, nem o nosso.

Seu sonho vem do encantamento pela vida. Do que ela nos oferece de bom, sobretudo o TEMPO. E você aproveita todos os segundos. Todos os detalhes, todos os movimentos das mãos de uma dança. Entende? Exatamente, seu sonho é colorido, com formas, cheiros e gostos. De todos, de muitos, sem nada excluir.

Quem sonha assim, como pode esperar que alguém os retrate? Você é a representação do substantivo e do verbo. Você sonha e é.

O máximo que posso fazer é essa confissão tacanha de que não consigo sonhar POR você. Somente COM, isso serve?

Preposições...

 

Afetuoso beijo, Katheryne

 

*é um prazer ter o que escrevo em encenações suas, obrigada!

 

PAUL KLEE

A SANTA DA LUZ INTERIOR, 1921
litografia s/ papel

 



Escrito por K.N. (Kathy) às 21h09
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*se conselho fosse bom...*

 

Pra começar um novo ciclo é necessário que o anterior se feche. Conselho de revista feminina. Certo, certíssimo! Comprovado e aprovado. Do contrário: as mesmas conversas, as mesmas dúvidas, o mesmo gosto de comida sem sal. Sabe aquela sensação gostosa de gula quando passamos numa doceria e escolhemos com o paladar dos olhos???? E na boca, falta o sabor visual??? Mais ou menos assim. Frustrante.

Uma nova página tem que ser inaugurada, registrada, celebrada. Como roupa nova em dia de aniversário. Cheiro de loja chic. Gosto de champagne. Não deve existir sensação de passado maltratado, mas a palpitação de um primeiro beijo. Do todo possível. Do infinito. Da força. Da possibilidade de agarrar o segundo com os dentes.

É disso que falo.

Falo do novo, do branquinho, do cheiro de comfort. Da maciez do início, sem vícios, sem máculas. Do cuidado imaculado dos amantes para não se perderem. Das coincidências e das urgências.Do frescor, da leveza, da segurança. Do “querer dar certo”. Do dia-a-dia de conquista. Novos sujeitos e predicados.

Um ciclo dentro do outro não é nem passado, nem presente e, com convicção, não será futuro. Mostra-se como ferida cicatrizada por fora, mas basta olhar pra ela  que volta a sangrar, mesmo que não se toque. A ofensa está aí presente, presente, presente, mesmo sem estar. E a dor é egoísta, não deixa que o novo, o bom, o prazer se instale.  Tudo se restringe às mesmas emoções sentidas, re-pe-ti-da-men-te.

Se as revistas femininas dão conselhos, por que não eu? Melhor quitar faturas antigas, melhor jogar fora a chave do passado, melhor comprar um caderno novo e contar nova história ; enquanto há tempo, enquanto o coração bate, enquanto as folhas do calendário não estão amareladas e destacando-se com o vento. É isso.




Escrito por K.N. (Kathy) às 13h52
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*o mar e eu*

 

Estava lá quando choveu

Água no oceano

Penumbra de sentimentos -

Secretos.

 

Senti sozinha  o encontro

Água doce e sal

Alegria tímida do querer -

Mínimo  - não o meu.

 

Perscrutei a realidade

No diário de areia

Indo-se .... eolicamente –

Delicadezas.

 

Carreguei nas mãos

Os grãos do dia

Salvei a memória -

Pálida.

 

Da realidade - a minha.

 

OCTÁVIO ARAÚJO

 

*mais um poema da série MAR.



Escrito por K.N. (Kathy) às 23h26
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Mar(h)eresia

Quero morar perto do mar,

onde as ondas quebram

ao pé do ouvido -

overdose de sal.

 

Sentir a maresia na pele

esparramando a clareza do dia,

ungindo os sentidos da madrugada

da castidade enigmática do oceano.

 

Revolver a areia com os pés,

tocar  o chão úmido da memória

estalando os dedos para a sorte,

recebendo o presente da noite como lua nova.

 

 

Quero estar perto do que é único -

singularidade da matéria

na obviedade de ser/estar/existir.

Nadar(ia) em nós....

 

 

Ship

Carroll Dunham (American, born 1949)

 

 



Escrito por K.N. (Kathy) às 22h27
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*in time*

 

 

 

Clichê. Se existe algo que não se pode recuperar é o tempo. Nesse mesmo instante em que escrevo esta frase, outras deixei de escrever. E isso é uma decisão formal minha, da minha inspiração. Escolhas do meu tempo.

E se não volta, cada minuto, é porque permanece o que nele foi feito. Daí fazer o melhor que posso e quero, para que fique no tempo. No regrets.

Todas as vezes em que cantei alto, que me apaixonei, estão marcadas, registradas so-no-ra-men-te. Os erros também. Estão na lembrança do (meu) tempo; e, quando alcanço a memória com as pontas dos dedos, posso reviver muitas coisas, recobrar emoções e desfazer desse tempo tão severo.

Enquanto posso: falo, falo tudo. Enquanto quero: escrevo tudo, tudinho, palavra - por –palavra,  para que não reste qualquer dúvida  de que  estou exatamente no meu tempo.

O bom de desaguar o dia sobre o tempo é que ele existe de modo cheio, não meia tela, muito menos próxima tela: tela de cinema, mesmo! Ocupo as frações de segundo da minha existência consciente dele.

E se ele (o tempo) impõe sua exatidão, eu lhe imponho a plenitude da minha existência. Nunca cobrará nada de mim, nem eu dele. Acordo tácito cumprido a risca, risca de giz, dos ternos que amo.

Quando passar hoje, para amanhã, nossa conta estará zerada. A possibilidade reinou ante a adversidade. Realizei as vontades que podia, que devia, que queria. E conjugo o verbo no presente, novamente, pra lhe mostrar que estou no comando da vida, ainda que pese “o tempo”.

Minha vida é muito preciosa para que o tempo se imponha de maneira sorrateira. Não, não. A vida é o meu tempo e faço dele um cúmplice. De inícios, reinícios e despedidas. Vividos, todos, com a intensidade de um bom Barolo.

E, abusando de clichês: se a vida é curta, aproveito a efemeridade de seu tempo para existir, não co-existir. Abraço com carinho, beijo com amor, falo com honestidade, durmo com tranquilidade.

Descanso de mim, na certeza de que o tempo é justo para aqueles que vivem e não coabitam o planeta Terra.

 

Calor... vamos tomar um sorvete na esquina?

 

 

Great Metaphysical Interior

Giorgio de Chirico (Italian, born Greece. 1888-1978)

 

 



Escrito por K.N. (Kathy) às 18h16
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*Regina*

Querida,

 

Você que agora é brilho,

do mais puro quilate

sem matéria necessária -

sem voz  - dispensável...

Você.

 

Você que é toda luz;

 extravasa o tempo

para imaterializar-se,

desprender-se das horas.

Você.

 

Você que é realização.

Que fez novas vidas,

Alinhou predicados -

verteu amor.

Você.

 

Você que é imortal.

Sem presente e de presente.

Lançou seus braços pra o mundo

confortando sonhos, sendo sonho.

Você.

 

Você que longe daqui

É dentro de nós,

como as mais delicadas presenças

que ali, mora aqui. Sempre.

Você.

 

Até breve, querida.

 

 

Butterflies

Odilon Redon (French, 1840-1916)

*para VOCÊ, querida Tia Regina, que regressou ao plano espiritual em 30/10/2009. Muito amor e luz, sua sobrinha-neta, katheryne

 



Escrito por K.N. (Kathy) às 10h49
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*aceita um charuto?*

 

Voltava do hospital às 22,00 horas do último sábado. Cidade praticamente vazia, como gosto. Tranquilidade antagônica de se andar pelas ruas da nossa São Paulo. Pensava. Sentia. Imagens embaralhadas do que quero fazer e/ou do que devo fazer. Satisfação íntima de andar no caminho certo. Pelo menos no caminho de casa. Ah! Esqueci de comprar os protetores auriculares. Agora é festa todo dia na churrascaria argentina aqui do lado de casa. Ainda mais no dia do jogo Brasil e Argentina. Fatalmente, os dias desses jogos marcaram muito minha vida, lembranças do passado são inevitáveis e eu as recebo, no presente, com um sorriso. De satisfação e melancólica saudades. Mais não é esse o assunto.

O assunto é que há dois quarteirões de casa pára, a minha frente, uma moto. Com aquelas malas de entrega de pizza. Uma de milhares que circulam por aqui. E, nela, um rapaz com calça jeans, tênis, camisa azul listrada e um belo charuto na mão. Sim, charuto, você leu bem.

Com uma das mãos (a direita) segurava o guidão da moto e com a outra sustentava faceiro seu charuto. Um charuto largo e bonito, coisa de gente importante ou que se importa. Com perna direita no asfalto dava uma baforada pela viseira que estava aberta.

Surreal a cena. E ele sempre a minha dianteira, no mesmo caminho em que eu estava, literalmente. Num farol mais adiante parou ao meu lado (esquerdo) - eu com o vidro aberto, pois fumava também, descaradamente. Entreolhamos-nos entre as fumaças. E daí um cumprimento simples. Luz verde: andei, ele virou a esquerda numa travessa anterior a minha. (Esqueci de dizer que nesse momento, da última parada, vi que estava com um fone no ouvido.)

Nossa, está aí: “Aproveitar a vida como ela se nos apresenta. É isso!”. Dei uma risada de pleno entendimento.

Naquela moto, no horário do famoso jogo Brasil e Argentina, aposto que o rapaz queria estar com os amigos numa roda de cerveja vendo a partida e gritando altos palavrões que só os homens conseguem fazer quando estão juntos. E ainda assim, entenderem-se - uns com os outros.

Mas, precisava trabalhar, trouxera a narração às orelhas e o prazer à boca. E quase estava lá. É: “O que fazer com o que se tem”.

Na certa, voltando à pizzaria de onde fazia entregas, comentaria um ou outro lance, na perfeita sensação de que estiveram juntos.

É a vida. Com escolhas certas, erradas e as que estão no meio do caminho. E é esse meio do caminho que me interessa. Quando acertamos: glória! Erramos: retomadas! E quando não se sabe o que fazer? É o mistério de como nos posicionamos diante dos acontecimentos e da vida.

Muitas vezes basta olhar à volta pegar um arsenal de sobrevivência: chocolates e DVD’s e ficar no silêncio dos gênios. Pra depois emergir com uma “sacada”genial, ou nem tanto, mas, enfim, uma saída. Em outras: pegar o telefone, falar, discutir, ouvir palavras. Em outras mais, escrever, escrever até escoar o sentimento e sobrar a razão impressa.

As encruzilhadas é que direcionam o que somos e para onde vamos. Nesses momentos temos a vida, EXATAMENTE, em nossas mãos. E é nesse átimo de tempo que podemos amar, ser amado, sofrer, ficar só, beber, beber muito, viajar. Dentro de nós. Uma cortina do tempo se abe para nossas escolhas. Uma fertilidade da vida.

Ele (o motoqueiro) poderia ter saído com raiva para o delivery e ter entregado uma pizza toda "revirada", mas não! Poderia ter caído da moto e ter tomado uma multa! Poderia não ter ido trabalhar e ficar sem pagar o cinema do dia seguinte! Poderia..... ah! Poderia. Mas, classicamente, com seu charuto e jogo ao pé do ouvido, ficou com o que tem e fez o melhor que podia. Pra continuar sendo, existido. Não desistiu de si, em que pesem as circunstâncias.

E, chegando em casa, esses novos pensamentos me enchiam de alguma alegria. Um contentamento calmo de que o que existe de fato são as opções que fazemos no nosso dia-a-dia . E com alguma lucidez e muito emoção (ou seria o inverso) sempre agimos na tentativa de fazer o que é melhor, de um jeito ou de outro. Vale o risco quando a intenção é certa. Vale a dificuldade quando se almeja felicidade. Vale a dor quando se ama. Vale o tempo quando a recompensa chega. Vale a atitude pela palavra não dita. Vale o silêncio quando há entendimento. Vale o afastamento pelo reencontro. Vale o dia pela noite com você. Vale o sacrifício da comodidade diária pelo prazer de sentir-se vivo.

Aceita um charuto? Ótima semana!

 

Henri Matisse
Open Window, Collioure , 1905 Open Window, Collioure, 1905

 

 



Escrito por K.N. (Kathy) às 14h22
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*poema ameaçador (!) de saudade*

 

Se você me quer venha depressa.

Não pense muito

Ou pense bem -

que o sentimento é uma coisa urgente.

 

Se você pensar na sua saudade

E nos seus “porquês” e “senãos’,

inevitavelmente, estará no meio do caminho

da minha saudade, que já é grande.

 

E você sabe que “lance” de saudade é coisa séria.

É vazio inexplicável

do que já conteve

um todo muito e tão amado.

 

Por isso, apresse-se amor.

Não fique nessa esteira obscura

e secreta dos que amam

e não realizam o amor.

 

Você percebe que estamos vivos

e que merecemos respirar e acontecer

nesse mundo de meu Deus!

Não suspirar de falta existente (!).

 

Se me ama e se te sou saudosa,

pelo menos nas músicas que me dedica

e na exposição camuflada de você,

é bom correr.

 

O que sinto aqui tão pertinho

é você e por você;

duas forças que, antagônicas, se justificam:

amor e saudades.

 

Enquanto ficamos na esfera das faltas

dos sorrisos, dos beijos e dos sonhos,

poderíamos estar muito bem no presente

em carne e osso.

 

A vida é pouca, mas muito boa e justa

Basta torná-la simples e viva:

pleonasmo de existir,

você entende?

 

Assim: se você “nos” quer ,

saiba que te amo e te ameaço com minha saudade.

Que é grande e proporcional ao que te sinto,

mas dolorosa quando você não está.

 

Resolva, meu bem, seus mistérios;

não me deixe nos versos de falta existencial,

porque uma rima ou outra pode não dar certo

e formar um poema de tristeza exata.

 

O tempo é um bem precioso na vida da gente

e a gente é brilhante (jóia) na vida, por Deus!

Como desprezar o que somos,

se o que somos e queremos está nas nossas mãos?

 

Avise-me de você.

Conjuguemos nossas saudades,

que serão pura paixão de reencontro.

Isso se você me quer.

 

Mas, se por acaso, todavia, entretanto,

preferir o passado pela ânsia (!) nostálgica

de, simplesmente, envelhecer com calma...

Respeito.

 

Afinal se a vida não vale

pela conjugação incessante do verbo sentir,

significa que você não está vivo em vida

e que meu sentimento é genuíno: saudades.

 

Descanse em paz, amém.

 

 

Upside Down Ada

Alex Katz (American, born 1927)



Escrito por Kathy às 10h11
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*quando falo de amor*

E vem a vida novamente,

atropelando meus sentimentos,

desaguando sua impaciência

sobre o meu tempo.

 

E eu aqui, tão distraída

para a novidade não nova,

para represar meu intacto coração

que fiquei sem ar nem rumo.

 

A vida com suas regras discretas

e sinuosas,

que dificulta o caminho

da realidade (imposta)  presente.

 

Fico no limbo da existência -

plena e transversa -

do que é ou poderia ser,

no seu manual de sobrevivência.

 

Resta a vida, imperiosa!

Dizendo sobre o hoje,

amoldando-me aos seus desmandos

impondo seu controle.

 

 

Sobro eu nesse labirinto,

sem o mapa das emoções bipartidas -

ou certezas unívocas,

quando falo de amor.

 

 

 

Green Still Life

Pablo Picasso (Spanish, 1881-1973)

*R.C.P.

 



Escrito por Kathy às 14h21
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*sra. leveza*

 

Às vezes  é preciso emergir, sabe?  Sair da comodidade farta do dia-a-dia para pisar a grama com os pés descalços antes de ir para o trabalho. Fazer o que não se faz em nome da moral e dos bons costumes. Transgredir – transgredir a si mesmo.

É preciso... sim, é preciso! Somente é preciso ser, o que já nos toma bastante tempo. Ser de verdade  aquilo que se é quando se toma banho. Cantar, rir, lembrar e sentir a água correr na "multidão dos seus pecados". Escrever no box o nome de alguém amado.

Tão necessário quanto respirar é sentir o que se respira. Quer fumar? Fume. Inspire o que vem de você após o trago ilegal da saúde. Isso é também a gente. É preciso desabituar os sentidos do que é certo ou errado aos olhos da casa alheia. A nossa alma só a nós habita e é a ela que devemos a satisfação de ser feliz.

Ah! Acordar de manhã e voltar a dormir numa quarta-feira: transgressão máxima. Acúmulo de prazer de estar vivo e estar onde se quer, com quem se quer. Se bem que estar sozinho é bastante revolucionário nesses dias:  guerreando com telefones, Internet, televisão, ipod. Como se não bastassem as vozes que ecoam dentro de nós.

Muitas vezes é preciso o silêncio total. Sem ordens ou desmandos. As pessoas deveriam ser um pouco mais secretas, como sou eu. E dar ao valor ao que se sente. Acalmar nossa histeria interna com um pouco de flores para podar, sabe? Fechar a banca, sem a placa do “Volto logo!”. Oras, volto quando quiser, a casa é minha!

Ouvi de uma amiga muito amada sobre viver “leve”. E a leveza desde então me percorre como se nunca tivesse ouvido a expressão. Como nas barrinhas de cereais: light! Até iogurte com o nome “pense leve” já existe. Deve ser a urgência dessa moda diet! Mas o que é ser leve senão viver e sobreviver a despeito das circunstâncias e de nós?

É preciso prestar atenção às delicadezas - fora de moda. É preciso mesmo “pegar leve” com a gente (tem razão querida do parágrafo anterior). Leve não, levíssimo! Descortinar o que nos cala. Desabrochar os sentimentos. Deixar o coração bater, acelerar e correr. Suspirar. Segurar o nosso próprio leme. Andar em nossa direção. Existir. É preciso voar dentro de nós e sobrevoar o mundo.

Cortar o cabelo. Amar de novo. Amar pra sempre. Eu te amo. Falar. Derreter. Fazer tostadas. Enviar flores. Receber carinhos. Escrever cartas à mão. Trocar receitas. Desapegar-se de pessoas e coisas. Conhecer. Explorar. Colecionar o que nos é caro. Preparar um jantar à luz de velas. Deleitar-se. Curry. Aromas, perfumes e cheiros. Viajar. Encontrar-se sem hora marcada. Estar junto. Sorrir. Ouvir músicas, sons e barulhos , bons! Comer chocolate, pizza e afins. Respirar sem pressa. Amigos. Confidências. Madrugadas. Família e cachorro. Esperar um telefonema. Suar frio. Frio no estômago. Salivar. Esquentar. Unhas vermelhas. Eternizar.

Às vezes, é preciso viver, apenas. “De leve”, quase levitando sobre nós mesmos.  

 

Maria Bonomi 
O Inventor , dia e mês desconhecidos 2000 
litogravura 

*para Sra. Leveza (R.L.), claro!



Escrito por Kathy às 08h28
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*Instante*

Simples assim

Receita de liquidificador

Sem muito tempo pra assar as palavras

Nem adormecer as emoções.

 

É disso que gosto:

Café expresso.

Pão na chapa de manhã.

Pizza em casa de noite.

 

Delicados prazeres

Instantâneos à mão

Saciadores de fome

Urgente, de repente - existo.

 

Nada de muitas regras,

Explicações longas,

Tempo de carência

Tudo aqui.

 

Instintivo, como perfume.

Exato, exato e ponto.

Sujeito, verbo e predicado.

Um pensamento perfeito.

 

É assim que a vontade

Não encontra espaço

Pra diminuir, decair

Pra ser apenas lembrança.

 

Di Cavalcanti, Emiliano
  O Beijo, 1923
 

Têmpera s/ tela

*não é, Fê?

 



Escrito por Kathy às 20h03
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*antônimo*

Quando eu falo que gosto de você de um tanto sem fim,

explico da maneira mais simples, tal qual uma criança fala seu nome

sem respiração entre as palavras,

sem retirar o embrulho do presente.

 

Assim puramente, sem maiores complicações -

nem facilidades que você possa perceber -

dito uma frase solta, como retrato falado,

mas que está presa, incontinenti, a uma parcela (minha) de existir.

 

Ao mesmo tempo que já disse o que era secreto

desvendo-me, sem retorno, para o que é inevitável: sua compreensão;

e então já não é mais possível resgatar o sentimento palavreado

nem represar a palavra contida na emoção sentida.

 

Saindo pela minha boca e depois expresso pela sua,

vejo que me atirei num precipício sem fundo

onde não posso mais sacrificar o corpo pelo espaço

nem conter o ar pelo peso das possibilidades.

 

E o que não me pertence mais, e que ficou no meio do caminho,

não tem mais a mesma beleza, eis que transformado em dilema.

E o que era tão grande e casto, liberto e sensível,

virou raciocínio de livro, modelo de conduta ou algo assim.

 

O vazio que está aqui dentro -  molde do que ficou -

é comovido de intensa saudade dos melhores amores que nunca findam.

E por não terem termo, quando reencontram seu pares

Gozam de profunda completude de encontrar esse mesmo sentimento no outro.

 

Tudo o que escrevo elipticamente com o alfabeto

fala de um amor sem gênero, sem idade e sem escolha: universal.

Digo o que sinto de uma forma muito inferior ao que já é, sem que fosse desvelado.

Mas quando VOCÊ diz o que EU sinto por você, fico reduzida a uma máquina de sentir.

 

Quando falo que gosto de você, estampo uma verdade real, um pleonasmo de sentimentos

que se você não apreende dessa mesma forma, ingênua e verdadeira, humilha o meu amor,

reduz meu sentimento a logicidade cotidiana tão menor do que existe de fato

que fico pequena, diluída e impura: antônimo de mim.

Paul Klee. Introducing the Miracle. 1916

Paul Klee.

Introducing the Miracle. 1916.



Escrito por Kathy às 00h08
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*Lápis sem papel*

Eu queria escrever algo que emocionasse. A mim e a você. Que se possa ler as linhas e sentir o que escorre por dentro do papel. Exalar o cheira da tinta, a transpiração da mão. Queria mesmo escrever algo vivo. Entende?

Queria escrever algo que tocasse. Música? Pode ser. Que carregasse algo de lúdico nas entrelinhas, que restasse inesquecível. Queria impressionar. Pressionar a caneta sobre o papel e marcar de forma definitiva um sentimento. Entende?

Queria escrever algo que não se pudesse soletrar. Nem ler, nem entender. Que fizesse apenas chorar. Que inspirasse um sentimento invisível, ininteligível, sensível – em rimas  e em dízimas. Queria escrever algo não matemático. Entende?

Queria apenas traduzir emoção em palavras. Ou não. Que chegasse perto do selvagem que existe em você. E devorar-te. Queria escrever um texto alucinado, febril, sabe?

Queria escrever algo que te desarrumasse por dentro. Que retratasse a fina estampa de como estou. Que sacudisse seus brios e o tornasse mais valente pra mim. Queria escrever algo corajoso. Entende?

Queria escrever algo transgressor. Ou conservador. Depende da interpretação aí do outro lado. Queria ser do contra. Provocar, insultar. Queria provocar arranhões em mim. Entende?

Eu queria mesmo era escrever. Descrever. A mim e a você. Como se possível fosse delinear todos os matizes de existir. Queria dissecar a marola calma e morna que vem de nós. E encontrar uma concha. Queria subverter. Entende?

O que quero e que não escrevo é o que justamente fica. Ou não. A parte que sobrevoa estas linhas. O que não está dito. O que reflui de mim pra você e vice-versa. O que não está aqui é de uma existência muito mais coerente do que poderia, eu, escrever. Entende?

Painting: Piet Mondrian. Broadway Boogie Woogie. 1942–43.

Piet Mondrian. Broadway Boogie Woogie. 1942–43.

*Um 2008 cheio de inspiração, sorrisos e beijinhos para todos!



Escrito por Kathy às 10h14
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