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Mar(h)eresia
Quero morar perto do mar, onde as ondas quebram ao pé do ouvido - overdose de sal. Sentir a maresia na pele esparramando a clareza do dia, ungindo os sentidos da madrugada da castidade enigmática do oceano. Revolver a areia com os pés, tocar o chão úmido da memória estalando os dedos para a sorte, recebendo o presente da noite como lua nova. Quero estar perto do que é único - singularidade da matéria na obviedade de ser/estar/existir. Nadar(ia) em nós.... 
Escrito por K.N. (Kathy) às 22h27
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*in time*
Clichê. Se existe algo que não se pode recuperar é o tempo. Nesse mesmo instante em que escrevo esta frase, outras deixei de escrever. E isso é uma decisão formal minha, da minha inspiração. Escolhas do meu tempo. E se não volta, cada minuto, é porque permanece o que nele foi feito. Daí fazer o melhor que posso e quero, para que fique no tempo. No regrets. Todas as vezes em que cantei alto, que me apaixonei, estão marcadas, registradas so-no-ra-men-te. Os erros também. Estão na lembrança do (meu) tempo; e, quando alcanço a memória com as pontas dos dedos, posso reviver muitas coisas, recobrar emoções e desfazer desse tempo tão severo. Enquanto posso: falo, falo tudo. Enquanto quero: escrevo tudo, tudinho, palavra - por –palavra, para que não reste qualquer dúvida de que estou exatamente no meu tempo. O bom de desaguar o dia sobre o tempo é que ele existe de modo cheio, não meia tela, muito menos próxima tela: tela de cinema, mesmo! Ocupo as frações de segundo da minha existência consciente dele. E se ele (o tempo) impõe sua exatidão, eu lhe imponho a plenitude da minha existência. Nunca cobrará nada de mim, nem eu dele. Acordo tácito cumprido a risca, risca de giz, dos ternos que amo. Quando passar hoje, para amanhã, nossa conta estará zerada. A possibilidade reinou ante a adversidade. Realizei as vontades que podia, que devia, que queria. E conjugo o verbo no presente, novamente, pra lhe mostrar que estou no comando da vida, ainda que pese “o tempo”. Minha vida é muito preciosa para que o tempo se imponha de maneira sorrateira. Não, não. A vida é o meu tempo e faço dele um cúmplice. De inícios, reinícios e despedidas. Vividos, todos, com a intensidade de um bom Barolo. E, abusando de clichês: se a vida é curta, aproveito a efemeridade de seu tempo para existir, não co-existir. Abraço com carinho, beijo com amor, falo com honestidade, durmo com tranquilidade. Descanso de mim, na certeza de que o tempo é justo para aqueles que vivem e não coabitam o planeta Terra. Calor... vamos tomar um sorvete na esquina? 
Giorgio de Chirico (Italian, born Greece. 1888-1978)
Escrito por K.N. (Kathy) às 18h16
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*Regina*
Querida, Você que agora é brilho, do mais puro quilate sem matéria necessária - sem voz - dispensável... Você. Você que é toda luz; extravasa o tempo para imaterializar-se, desprender-se das horas. Você. Você que é realização. Que fez novas vidas, Alinhou predicados - verteu amor. Você. Você que é imortal. Sem presente e de presente. Lançou seus braços pra o mundo confortando sonhos, sendo sonho. Você. Você que longe daqui É dentro de nós, como as mais delicadas presenças que ali, mora aqui. Sempre. Você. Até breve, querida. 
*para VOCÊ, querida Tia Regina, que regressou ao plano espiritual em 30/10/2009. Muito amor e luz, sua sobrinha-neta, katheryne
Escrito por K.N. (Kathy) às 10h49
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*aceita um charuto?*
Voltava do hospital às 22,00 horas do último sábado. Cidade praticamente vazia, como gosto. Tranquilidade antagônica de se andar pelas ruas da nossa São Paulo. Pensava. Sentia. Imagens embaralhadas do que quero fazer e/ou do que devo fazer. Satisfação íntima de andar no caminho certo. Pelo menos no caminho de casa. Ah! Esqueci de comprar os protetores auriculares. Agora é festa todo dia na churrascaria argentina aqui do lado de casa. Ainda mais no dia do jogo Brasil e Argentina. Fatalmente, os dias desses jogos marcaram muito minha vida, lembranças do passado são inevitáveis e eu as recebo, no presente, com um sorriso. De satisfação e melancólica saudades. Mais não é esse o assunto. O assunto é que há dois quarteirões de casa pára, a minha frente, uma moto. Com aquelas malas de entrega de pizza. Uma de milhares que circulam por aqui. E, nela, um rapaz com calça jeans, tênis, camisa azul listrada e um belo charuto na mão. Sim, charuto, você leu bem. Com uma das mãos (a direita) segurava o guidão da moto e com a outra sustentava faceiro seu charuto. Um charuto largo e bonito, coisa de gente importante ou que se importa. Com perna direita no asfalto dava uma baforada pela viseira que estava aberta. Surreal a cena. E ele sempre a minha dianteira, no mesmo caminho em que eu estava, literalmente. Num farol mais adiante parou ao meu lado (esquerdo) - eu com o vidro aberto, pois fumava também, descaradamente. Entreolhamos-nos entre as fumaças. E daí um cumprimento simples. Luz verde: andei, ele virou a esquerda numa travessa anterior a minha. (Esqueci de dizer que nesse momento, da última parada, vi que estava com um fone no ouvido.) Nossa, está aí: “Aproveitar a vida como ela se nos apresenta. É isso!”. Dei uma risada de pleno entendimento. Naquela moto, no horário do famoso jogo Brasil e Argentina, aposto que o rapaz queria estar com os amigos numa roda de cerveja vendo a partida e gritando altos palavrões que só os homens conseguem fazer quando estão juntos. E ainda assim, entenderem-se - uns com os outros. Mas, precisava trabalhar, trouxera a narração às orelhas e o prazer à boca. E quase estava lá. É: “O que fazer com o que se tem”. Na certa, voltando à pizzaria de onde fazia entregas, comentaria um ou outro lance, na perfeita sensação de que estiveram juntos. É a vida. Com escolhas certas, erradas e as que estão no meio do caminho. E é esse meio do caminho que me interessa. Quando acertamos: glória! Erramos: retomadas! E quando não se sabe o que fazer? É o mistério de como nos posicionamos diante dos acontecimentos e da vida. Muitas vezes basta olhar à volta pegar um arsenal de sobrevivência: chocolates e DVD’s e ficar no silêncio dos gênios. Pra depois emergir com uma “sacada”genial, ou nem tanto, mas, enfim, uma saída. Em outras: pegar o telefone, falar, discutir, ouvir palavras. Em outras mais, escrever, escrever até escoar o sentimento e sobrar a razão impressa. As encruzilhadas é que direcionam o que somos e para onde vamos. Nesses momentos temos a vida, EXATAMENTE, em nossas mãos. E é nesse átimo de tempo que podemos amar, ser amado, sofrer, ficar só, beber, beber muito, viajar. Dentro de nós. Uma cortina do tempo se abe para nossas escolhas. Uma fertilidade da vida. Ele (o motoqueiro) poderia ter saído com raiva para o delivery e ter entregado uma pizza toda "revirada", mas não! Poderia ter caído da moto e ter tomado uma multa! Poderia não ter ido trabalhar e ficar sem pagar o cinema do dia seguinte! Poderia..... ah! Poderia. Mas, classicamente, com seu charuto e jogo ao pé do ouvido, ficou com o que tem e fez o melhor que podia. Pra continuar sendo, existido. Não desistiu de si, em que pesem as circunstâncias. E, chegando em casa, esses novos pensamentos me enchiam de alguma alegria. Um contentamento calmo de que o que existe de fato são as opções que fazemos no nosso dia-a-dia . E com alguma lucidez e muito emoção (ou seria o inverso) sempre agimos na tentativa de fazer o que é melhor, de um jeito ou de outro. Vale o risco quando a intenção é certa. Vale a dificuldade quando se almeja felicidade. Vale a dor quando se ama. Vale o tempo quando a recompensa chega. Vale a atitude pela palavra não dita. Vale o silêncio quando há entendimento. Vale o afastamento pelo reencontro. Vale o dia pela noite com você. Vale o sacrifício da comodidade diária pelo prazer de sentir-se vivo. Aceita um charuto? Ótima semana! 
Henri Matisse Open Window, Collioure , 1905 Open Window, Collioure, 1905
Escrito por K.N. (Kathy) às 14h22
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*poema ameaçador (!) de saudade*
Se você me quer venha depressa. Não pense muito Ou pense bem - que o sentimento é uma coisa urgente. Se você pensar na sua saudade E nos seus “porquês” e “senãos’, inevitavelmente, estará no meio do caminho da minha saudade, que já é grande. E você sabe que “lance” de saudade é coisa séria. É vazio inexplicável do que já conteve um todo muito e tão amado. Por isso, apresse-se amor. Não fique nessa esteira obscura e secreta dos que amam e não realizam o amor. Você percebe que estamos vivos e que merecemos respirar e acontecer nesse mundo de meu Deus! Não suspirar de falta existente (!). Se me ama e se te sou saudosa, pelo menos nas músicas que me dedica e na exposição camuflada de você, é bom correr. O que sinto aqui tão pertinho é você e por você; duas forças que, antagônicas, se justificam: amor e saudades. Enquanto ficamos na esfera das faltas dos sorrisos, dos beijos e dos sonhos, poderíamos estar muito bem no presente em carne e osso. A vida é pouca, mas muito boa e justa Basta torná-la simples e viva: pleonasmo de existir, você entende? Assim: se você “nos” quer , saiba que te amo e te ameaço com minha saudade. Que é grande e proporcional ao que te sinto, mas dolorosa quando você não está. Resolva, meu bem, seus mistérios; não me deixe nos versos de falta existencial, porque uma rima ou outra pode não dar certo e formar um poema de tristeza exata. O tempo é um bem precioso na vida da gente e a gente é brilhante (jóia) na vida, por Deus! Como desprezar o que somos, se o que somos e queremos está nas nossas mãos? Avise-me de você. Conjuguemos nossas saudades, que serão pura paixão de reencontro. Isso se você me quer. Mas, se por acaso, todavia, entretanto, preferir o passado pela ânsia (!) nostálgica de, simplesmente, envelhecer com calma... Respeito. Afinal se a vida não vale pela conjugação incessante do verbo sentir, significa que você não está vivo em vida e que meu sentimento é genuíno: saudades. Descanse em paz, amém. 
Escrito por Kathy às 10h11
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*quando falo de amor*
E vem a vida novamente, atropelando meus sentimentos, desaguando sua impaciência sobre o meu tempo. E eu aqui, tão distraída para a novidade não nova, para represar meu intacto coração que fiquei sem ar nem rumo. A vida com suas regras discretas e sinuosas, que dificulta o caminho da realidade (imposta) presente. Fico no limbo da existência - plena e transversa - do que é ou poderia ser, no seu manual de sobrevivência. Resta a vida, imperiosa! Dizendo sobre o hoje, amoldando-me aos seus desmandos impondo seu controle. Sobro eu nesse labirinto, sem o mapa das emoções bipartidas - ou certezas unívocas, quando falo de amor. 
*R.C.P.
Escrito por Kathy às 14h21
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*sra. leveza*
Às vezes é preciso emergir, sabe? Sair da comodidade farta do dia-a-dia para pisar a grama com os pés descalços antes de ir para o trabalho. Fazer o que não se faz em nome da moral e dos bons costumes. Transgredir – transgredir a si mesmo. É preciso... sim, é preciso! Somente é preciso ser, o que já nos toma bastante tempo. Ser de verdade aquilo que se é quando se toma banho. Cantar, rir, lembrar e sentir a água correr na "multidão dos seus pecados". Escrever no box o nome de alguém amado. Tão necessário quanto respirar é sentir o que se respira. Quer fumar? Fume. Inspire o que vem de você após o trago ilegal da saúde. Isso é também a gente. É preciso desabituar os sentidos do que é certo ou errado aos olhos da casa alheia. A nossa alma só a nós habita e é a ela que devemos a satisfação de ser feliz. Ah! Acordar de manhã e voltar a dormir numa quarta-feira: transgressão máxima. Acúmulo de prazer de estar vivo e estar onde se quer, com quem se quer. Se bem que estar sozinho é bastante revolucionário nesses dias: guerreando com telefones, Internet, televisão, ipod. Como se não bastassem as vozes que ecoam dentro de nós. Muitas vezes é preciso o silêncio total. Sem ordens ou desmandos. As pessoas deveriam ser um pouco mais secretas, como sou eu. E dar ao valor ao que se sente. Acalmar nossa histeria interna com um pouco de flores para podar, sabe? Fechar a banca, sem a placa do “Volto logo!”. Oras, volto quando quiser, a casa é minha! Ouvi de uma amiga muito amada sobre viver “leve”. E a leveza desde então me percorre como se nunca tivesse ouvido a expressão. Como nas barrinhas de cereais: light! Até iogurte com o nome “pense leve” já existe. Deve ser a urgência dessa moda diet! Mas o que é ser leve senão viver e sobreviver a despeito das circunstâncias e de nós? É preciso prestar atenção às delicadezas - fora de moda. É preciso mesmo “pegar leve” com a gente (tem razão querida do parágrafo anterior). Leve não, levíssimo! Descortinar o que nos cala. Desabrochar os sentimentos. Deixar o coração bater, acelerar e correr. Suspirar. Segurar o nosso próprio leme. Andar em nossa direção. Existir. É preciso voar dentro de nós e sobrevoar o mundo. Cortar o cabelo. Amar de novo. Amar pra sempre. Eu te amo. Falar. Derreter. Fazer tostadas. Enviar flores. Receber carinhos. Escrever cartas à mão. Trocar receitas. Desapegar-se de pessoas e coisas. Conhecer. Explorar. Colecionar o que nos é caro. Preparar um jantar à luz de velas. Deleitar-se. Curry. Aromas, perfumes e cheiros. Viajar. Encontrar-se sem hora marcada. Estar junto. Sorrir. Ouvir músicas, sons e barulhos , bons! Comer chocolate, pizza e afins. Respirar sem pressa. Amigos. Confidências. Madrugadas. Família e cachorro. Esperar um telefonema. Suar frio. Frio no estômago. Salivar. Esquentar. Unhas vermelhas. Eternizar. Às vezes, é preciso viver, apenas. “De leve”, quase levitando sobre nós mesmos. 
Maria Bonomi O Inventor , dia e mês desconhecidos 2000 litogravura
*para Sra. Leveza (R.L.), claro!
Escrito por Kathy às 08h28
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*Instante*
Simples assim
Receita de liquidificador
Sem muito tempo pra assar as palavras
Nem adormecer as emoções.
É disso que gosto:
Café expresso.
Pão na chapa de manhã.
Pizza em casa de noite.
Delicados prazeres
Instantâneos à mão
Saciadores de fome
Urgente, de repente - existo.
Nada de muitas regras,
Explicações longas,
Tempo de carência
Tudo aqui.
Instintivo, como perfume.
Exato, exato e ponto.
Sujeito, verbo e predicado.
Um pensamento perfeito.
É assim que a vontade
Não encontra espaço
Pra diminuir, decair
Pra ser apenas lembrança.

Escrito por Kathy às 20h03
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*antônimo*
Quando eu falo que gosto de você de um tanto sem fim,
explico da maneira mais simples, tal qual uma criança fala seu nome
sem respiração entre as palavras,
sem retirar o embrulho do presente.
Assim puramente, sem maiores complicações -
nem facilidades que você possa perceber -
dito uma frase solta, como retrato falado,
mas que está presa, incontinenti, a uma parcela (minha) de existir.
Ao mesmo tempo que já disse o que era secreto
desvendo-me, sem retorno, para o que é inevitável: sua compreensão;
e então já não é mais possível resgatar o sentimento palavreado
nem represar a palavra contida na emoção sentida.
Saindo pela minha boca e depois expresso pela sua,
vejo que me atirei num precipício sem fundo
onde não posso mais sacrificar o corpo pelo espaço
nem conter o ar pelo peso das possibilidades.
E o que não me pertence mais, e que ficou no meio do caminho,
não tem mais a mesma beleza, eis que transformado em dilema.
E o que era tão grande e casto, liberto e sensível,
virou raciocínio de livro, modelo de conduta ou algo assim.
O vazio que está aqui dentro - molde do que ficou -
é comovido de intensa saudade dos melhores amores que nunca findam.
E por não terem termo, quando reencontram seu pares
Gozam de profunda completude de encontrar esse mesmo sentimento no outro.
Tudo o que escrevo elipticamente com o alfabeto
fala de um amor sem gênero, sem idade e sem escolha: universal.
Digo o que sinto de uma forma muito inferior ao que já é, sem que fosse desvelado.
Mas quando VOCÊ diz o que EU sinto por você, fico reduzida a uma máquina de sentir.
Quando falo que gosto de você, estampo uma verdade real, um pleonasmo de sentimentos
que se você não apreende dessa mesma forma, ingênua e verdadeira, humilha o meu amor,
reduz meu sentimento a logicidade cotidiana tão menor do que existe de fato
que fico pequena, diluída e impura: antônimo de mim.

Paul Klee.
Introducing the Miracle. 1916.
Escrito por Kathy às 00h08
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*Lápis sem papel*
Eu queria escrever algo que emocionasse. A mim e a você. Que se possa ler as linhas e sentir o que escorre por dentro do papel. Exalar o cheira da tinta, a transpiração da mão. Queria mesmo escrever algo vivo. Entende?
Queria escrever algo que tocasse. Música? Pode ser. Que carregasse algo de lúdico nas entrelinhas, que restasse inesquecível. Queria impressionar. Pressionar a caneta sobre o papel e marcar de forma definitiva um sentimento. Entende?
Queria escrever algo que não se pudesse soletrar. Nem ler, nem entender. Que fizesse apenas chorar. Que inspirasse um sentimento invisível, ininteligível, sensível – em rimas e em dízimas. Queria escrever algo não matemático. Entende?
Queria apenas traduzir emoção em palavras. Ou não. Que chegasse perto do selvagem que existe em você. E devorar-te. Queria escrever um texto alucinado, febril, sabe?
Queria escrever algo que te desarrumasse por dentro. Que retratasse a fina estampa de como estou. Que sacudisse seus brios e o tornasse mais valente pra mim. Queria escrever algo corajoso. Entende?
Queria escrever algo transgressor. Ou conservador. Depende da interpretação aí do outro lado. Queria ser do contra. Provocar, insultar. Queria provocar arranhões em mim. Entende?
Eu queria mesmo era escrever. Descrever. A mim e a você. Como se possível fosse delinear todos os matizes de existir. Queria dissecar a marola calma e morna que vem de nós. E encontrar uma concha. Queria subverter. Entende?
O que quero e que não escrevo é o que justamente fica. Ou não. A parte que sobrevoa estas linhas. O que não está dito. O que reflui de mim pra você e vice-versa. O que não está aqui é de uma existência muito mais coerente do que poderia, eu, escrever. Entende?

Piet Mondrian. Broadway Boogie Woogie. 1942–43.
*Um 2008 cheio de inspiração, sorrisos e beijinhos para todos!
Escrito por Kathy às 10h14
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*a -pena-s*
Como saber da fábula
sem desfrutar do conto,
encantamento hieróglifo nosso
gravados na mundana história?
Como esticar as horas
nas mesmas frações de felicidade
partilhadas e detectadas,
Re-pe-ti-da-men-te?
Como ver olhos meus
contidos nos seus sorrisos,
inflamados pela vida pungente
que sopra tão clandestina em mim?
Como represar o amor -
este existente entre nós
que se esquiva, esvazia
as linhas , apenas indo?
Como escolher a verdade
mais secreta e nua,
apenas a essência do que há
Se o que poderia ser, já foi?
Como faço para paralisar o dia,
exorcizar os momentos vindouros
da praga interna de cada um
e nos fazermos inteiros?
Como recolher seus medos,
invadir seus desertos
sem perder-te dentro de mim
Assim?
Tudo por tão pouco. Em muitos sentidos. Todos.

Salvador Dalí. (Spanish, 1904-1989). The Persistence of Memory. 1931
*resposta ao silêncio e vice-versa.
Escrito por Kathy às 19h20
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*inteiro*
Parte sua define o som. Aquele silêncio meticuloso promovido pela retina interna das emoções. É percepção de ruído inexistente. Resíduo de memória.
Parte sua ouve. Classifica as notas. Descompassa os movimentos. Agride a composição ou dele se utiliza como marca d’água para seus sentimentos.
Parte sua fala. As palavras inconsistentes do seu vocabulário interno. Não escolhe o termo. Derrama frases sem sentido vernáculo – absoluta correspondência com o invisível. E se faz entender.
Parte sua cala. Sabe bem as frases. As inadequações da redação. Acerta numa escritura literária desvairada. Entende-se consigo próprio.
Parte sua pensa sobre as emoções. Permite que criem vida própria em si. Ocupa-se do lúdico. É irresponsável com a realidade. É digno com sua condição humana.
Parte sua sente. Distingue os matizes das atitudes. Desenha proporções com significados pertinentes. Acerta e erra.
Parte sua deve ser você. Pode ser você. E muitas vezes, é bom que seja parte de você. Porque é o concreto. É a visão armada da visão factível da verdade.
Parte sua, apenas é. Independentemente do mundo do dever-ser. Existe de uma crueza animal, simplória, respeitável. Inteligível por mim. Algumas vezes negada por você, ou parte sua.
E, todas as frações de você são miscíveis dentro do enorme frasco de humanidade que você é. A complexidade sua é o que me encanta. A assunção dessas partes saborosas de você, por você mesmo, é que me fascina. Eu me tranqüilizo com sua unicidade repartida.
Ah! Você, em partes, é, para mim, parte inteira.

Sidewalk Cafe, Boulevard Diderot
Henri Cartier-Bresson
*para o Rô
Escrito por Kathy às 16h59
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*paixão*
Quando um sentimento desponta
fora do horário do amanhecer
fico com quatro mãos,
sem posição para guardar o presente.
Não faço pose certa -
sou capturada sem perceber,
num retrato preto e branco
de emoções cintilantes.
Nessa dança irregular,
pelo sim - pelo não,
ajeito o cabelo
e preparo o coração.
Mas, no instante seguinte,
o vento que sopra da sua direção
desarranja-me, so-le-ne-men-te,
para me amoldar a você.
Acabo sem saber
o momento cirúrgico
da aceitação pela palavra
ou do silêncio pela (in)atitude.
E sobro, nesta divisão,
agitada entre o “ir” ou “voltar”,
sem perceber que
poderia, somente, retribuir o agrado.
Sentimentos deveriam apresentar-se com manual de instruções.

Pieter Cornelis Mondrian
Açucena - depois de 1921
Aquarela e Lápis de cor sobre papel 25 x 19,5 cm
*sentimento antigo, poema novo.
Escrito por Kathy às 19h25
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*bem-te-vi*
Hoje, um post "incomum", assim como a visita que recebi....
Eis que entro na sala de casa, que fica sempre com a janela da varanda aberta e vejo um pássaro sobre um enfeite de madeira na frente do sofá. Corri, peguei a Moby no colo, para que ela não latisse, e ficamos nos "encarando". Ele com um peito amarelo-ouro , cabeça preta com uma faixa branca olhando para mim, a um passo de distância. Eu: com os olhos arregalados de susto, calelos loiros e peito branco (já que a Moby estava no colo, rs*******). Eu muda. Ele piou e saiu voando através do janelão e sumiu entre os galhos da árvore; e, nós ficamos na varanda esperando seu retorno.
Detalhe: não sabíamos o nome um do outro. Pesquisei pela internet (urbana é pouco, né?) pra saber que bicho era: um bem-te-vi. Ele continua sem saber o meu....
Coloco foto retirada da internet, por enquanto, mas vou deixar a digital a postos pra não perdê-lo de vista e da lente, ainda que do lado de fora. Beijinhos e alguém o viu por aí?


Ah! ha! te peguei hj 03/11 às 15,15 na varanda, né? rs*********
Escrito por Kathy às 19h40
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*Flash*
A fumaça do cigarro azulada cobre de magia o ar. Direciona meu olhar para o simples, para o volátil. Desaparece. E o pensamento também. Fica exatamente o retrato do instante em que se pensa que o rabisco promovido no ar é lindo. Distraidamente etéreo. Transporto-me para meus pensamentos.
E as idéias saem assim embaralhadas muitas vezes, sem motivo palpável para inspiração literária. Mas há alguma inspiração que não seja efêmera?
E com estas observações simplistas , de dentro do carro, na Avenida Paulista, nem percebo que o rádio não está ligado, como sempre. Meus pensamentos me fazem companhia. E quase não preciso de mais nada. Nem de prestar atenção ao tráfego, nem aos ruídos externos. Aqui dentro está tudo em harmônica efervescência.
Uma cadeia de imagens entre uma tragada e outra é o mundo em que existo perfeitamente, sem retoques, nem desejos mais hostis.
E tudo, neste silêncio, me apraz. Estou completamente acompanhada de mim. Pronto, o cigarro acabou.

Ícaro - Henri Matisse - 1947
Escrito por Kathy às 07h17
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