*Flash*
A fumaça do cigarro azulada cobre de magia o ar. Direciona meu olhar para o simples, para o volátil. Desaparece. E o pensamento também. Fica exatamente o retrato do instante em que se pensa que o rabisco promovido no ar é lindo. Distraidamente etéreo. Transporto-me para meus pensamentos.
E as idéias saem assim embaralhadas muitas vezes, sem motivo palpável para inspiração literária. Mas há alguma inspiração que não seja efêmera?
E com estas observações simplistas , de dentro do carro, na Avenida Paulista, nem percebo que o rádio não está ligado, como sempre. Meus pensamentos me fazem companhia. E quase não preciso de mais nada. Nem de prestar atenção ao tráfego, nem aos ruídos externos. Aqui dentro está tudo em harmônica efervescência.
Uma cadeia de imagens entre uma tragada e outra é o mundo em que existo perfeitamente, sem retoques, nem desejos mais hostis.
E tudo, neste silêncio, me apraz. Estou completamente acompanhada de mim. Pronto, o cigarro acabou.

Ícaro - Henri Matisse - 1947
Escrito por Kathy às 07h17
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