*inteiro*
Parte sua define o som. Aquele silêncio meticuloso promovido pela retina interna das emoções. É percepção de ruído inexistente. Resíduo de memória.
Parte sua ouve. Classifica as notas. Descompassa os movimentos. Agride a composição ou dele se utiliza como marca d’água para seus sentimentos.
Parte sua fala. As palavras inconsistentes do seu vocabulário interno. Não escolhe o termo. Derrama frases sem sentido vernáculo – absoluta correspondência com o invisível. E se faz entender.
Parte sua cala. Sabe bem as frases. As inadequações da redação. Acerta numa escritura literária desvairada. Entende-se consigo próprio.
Parte sua pensa sobre as emoções. Permite que criem vida própria em si. Ocupa-se do lúdico. É irresponsável com a realidade. É digno com sua condição humana.
Parte sua sente. Distingue os matizes das atitudes. Desenha proporções com significados pertinentes. Acerta e erra.
Parte sua deve ser você. Pode ser você. E muitas vezes, é bom que seja parte de você. Porque é o concreto. É a visão armada da visão factível da verdade.
Parte sua, apenas é. Independentemente do mundo do dever-ser. Existe de uma crueza animal, simplória, respeitável. Inteligível por mim. Algumas vezes negada por você, ou parte sua.
E, todas as frações de você são miscíveis dentro do enorme frasco de humanidade que você é. A complexidade sua é o que me encanta. A assunção dessas partes saborosas de você, por você mesmo, é que me fascina. Eu me tranqüilizo com sua unicidade repartida.
Ah! Você, em partes, é, para mim, parte inteira.

Sidewalk Cafe, Boulevard Diderot
Henri Cartier-Bresson
*para o Rô
Escrito por Kathy às 16h59
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