*Lápis sem papel*
Eu queria escrever algo que emocionasse. A mim e a você. Que se possa ler as linhas e sentir o que escorre por dentro do papel. Exalar o cheira da tinta, a transpiração da mão. Queria mesmo escrever algo vivo. Entende?
Queria escrever algo que tocasse. Música? Pode ser. Que carregasse algo de lúdico nas entrelinhas, que restasse inesquecível. Queria impressionar. Pressionar a caneta sobre o papel e marcar de forma definitiva um sentimento. Entende?
Queria escrever algo que não se pudesse soletrar. Nem ler, nem entender. Que fizesse apenas chorar. Que inspirasse um sentimento invisível, ininteligível, sensível – em rimas e em dízimas. Queria escrever algo não matemático. Entende?
Queria apenas traduzir emoção em palavras. Ou não. Que chegasse perto do selvagem que existe em você. E devorar-te. Queria escrever um texto alucinado, febril, sabe?
Queria escrever algo que te desarrumasse por dentro. Que retratasse a fina estampa de como estou. Que sacudisse seus brios e o tornasse mais valente pra mim. Queria escrever algo corajoso. Entende?
Queria escrever algo transgressor. Ou conservador. Depende da interpretação aí do outro lado. Queria ser do contra. Provocar, insultar. Queria provocar arranhões em mim. Entende?
Eu queria mesmo era escrever. Descrever. A mim e a você. Como se possível fosse delinear todos os matizes de existir. Queria dissecar a marola calma e morna que vem de nós. E encontrar uma concha. Queria subverter. Entende?
O que quero e que não escrevo é o que justamente fica. Ou não. A parte que sobrevoa estas linhas. O que não está dito. O que reflui de mim pra você e vice-versa. O que não está aqui é de uma existência muito mais coerente do que poderia, eu, escrever. Entende?

Piet Mondrian. Broadway Boogie Woogie. 1942–43.
*Um 2008 cheio de inspiração, sorrisos e beijinhos para todos!
Escrito por Kathy às 10h14
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