*antônimo*
Quando eu falo que gosto de você de um tanto sem fim,
explico da maneira mais simples, tal qual uma criança fala seu nome
sem respiração entre as palavras,
sem retirar o embrulho do presente.
Assim puramente, sem maiores complicações -
nem facilidades que você possa perceber -
dito uma frase solta, como retrato falado,
mas que está presa, incontinenti, a uma parcela (minha) de existir.
Ao mesmo tempo que já disse o que era secreto
desvendo-me, sem retorno, para o que é inevitável: sua compreensão;
e então já não é mais possível resgatar o sentimento palavreado
nem represar a palavra contida na emoção sentida.
Saindo pela minha boca e depois expresso pela sua,
vejo que me atirei num precipício sem fundo
onde não posso mais sacrificar o corpo pelo espaço
nem conter o ar pelo peso das possibilidades.
E o que não me pertence mais, e que ficou no meio do caminho,
não tem mais a mesma beleza, eis que transformado em dilema.
E o que era tão grande e casto, liberto e sensível,
virou raciocínio de livro, modelo de conduta ou algo assim.
O vazio que está aqui dentro - molde do que ficou -
é comovido de intensa saudade dos melhores amores que nunca findam.
E por não terem termo, quando reencontram seu pares
Gozam de profunda completude de encontrar esse mesmo sentimento no outro.
Tudo o que escrevo elipticamente com o alfabeto
fala de um amor sem gênero, sem idade e sem escolha: universal.
Digo o que sinto de uma forma muito inferior ao que já é, sem que fosse desvelado.
Mas quando VOCÊ diz o que EU sinto por você, fico reduzida a uma máquina de sentir.
Quando falo que gosto de você, estampo uma verdade real, um pleonasmo de sentimentos
que se você não apreende dessa mesma forma, ingênua e verdadeira, humilha o meu amor,
reduz meu sentimento a logicidade cotidiana tão menor do que existe de fato
que fico pequena, diluída e impura: antônimo de mim.

Paul Klee.
Introducing the Miracle. 1916.
Escrito por Kathy às 00h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|