*sra. leveza*
Às vezes é preciso emergir, sabe? Sair da comodidade farta do dia-a-dia para pisar a grama com os pés descalços antes de ir para o trabalho. Fazer o que não se faz em nome da moral e dos bons costumes. Transgredir – transgredir a si mesmo. É preciso... sim, é preciso! Somente é preciso ser, o que já nos toma bastante tempo. Ser de verdade aquilo que se é quando se toma banho. Cantar, rir, lembrar e sentir a água correr na "multidão dos seus pecados". Escrever no box o nome de alguém amado. Tão necessário quanto respirar é sentir o que se respira. Quer fumar? Fume. Inspire o que vem de você após o trago ilegal da saúde. Isso é também a gente. É preciso desabituar os sentidos do que é certo ou errado aos olhos da casa alheia. A nossa alma só a nós habita e é a ela que devemos a satisfação de ser feliz. Ah! Acordar de manhã e voltar a dormir numa quarta-feira: transgressão máxima. Acúmulo de prazer de estar vivo e estar onde se quer, com quem se quer. Se bem que estar sozinho é bastante revolucionário nesses dias: guerreando com telefones, Internet, televisão, ipod. Como se não bastassem as vozes que ecoam dentro de nós. Muitas vezes é preciso o silêncio total. Sem ordens ou desmandos. As pessoas deveriam ser um pouco mais secretas, como sou eu. E dar ao valor ao que se sente. Acalmar nossa histeria interna com um pouco de flores para podar, sabe? Fechar a banca, sem a placa do “Volto logo!”. Oras, volto quando quiser, a casa é minha! Ouvi de uma amiga muito amada sobre viver “leve”. E a leveza desde então me percorre como se nunca tivesse ouvido a expressão. Como nas barrinhas de cereais: light! Até iogurte com o nome “pense leve” já existe. Deve ser a urgência dessa moda diet! Mas o que é ser leve senão viver e sobreviver a despeito das circunstâncias e de nós? É preciso prestar atenção às delicadezas - fora de moda. É preciso mesmo “pegar leve” com a gente (tem razão querida do parágrafo anterior). Leve não, levíssimo! Descortinar o que nos cala. Desabrochar os sentimentos. Deixar o coração bater, acelerar e correr. Suspirar. Segurar o nosso próprio leme. Andar em nossa direção. Existir. É preciso voar dentro de nós e sobrevoar o mundo. Cortar o cabelo. Amar de novo. Amar pra sempre. Eu te amo. Falar. Derreter. Fazer tostadas. Enviar flores. Receber carinhos. Escrever cartas à mão. Trocar receitas. Desapegar-se de pessoas e coisas. Conhecer. Explorar. Colecionar o que nos é caro. Preparar um jantar à luz de velas. Deleitar-se. Curry. Aromas, perfumes e cheiros. Viajar. Encontrar-se sem hora marcada. Estar junto. Sorrir. Ouvir músicas, sons e barulhos , bons! Comer chocolate, pizza e afins. Respirar sem pressa. Amigos. Confidências. Madrugadas. Família e cachorro. Esperar um telefonema. Suar frio. Frio no estômago. Salivar. Esquentar. Unhas vermelhas. Eternizar. Às vezes, é preciso viver, apenas. “De leve”, quase levitando sobre nós mesmos. 
Maria Bonomi O Inventor , dia e mês desconhecidos 2000 litogravura
*para Sra. Leveza (R.L.), claro!
Escrito por Kathy às 08h28
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