...Semeando Palavras... (por Katheryne Nazer)


*aceita um charuto?*

 

Voltava do hospital às 22,00 horas do último sábado. Cidade praticamente vazia, como gosto. Tranquilidade antagônica de se andar pelas ruas da nossa São Paulo. Pensava. Sentia. Imagens embaralhadas do que quero fazer e/ou do que devo fazer. Satisfação íntima de andar no caminho certo. Pelo menos no caminho de casa. Ah! Esqueci de comprar os protetores auriculares. Agora é festa todo dia na churrascaria argentina aqui do lado de casa. Ainda mais no dia do jogo Brasil e Argentina. Fatalmente, os dias desses jogos marcaram muito minha vida, lembranças do passado são inevitáveis e eu as recebo, no presente, com um sorriso. De satisfação e melancólica saudades. Mais não é esse o assunto.

O assunto é que há dois quarteirões de casa pára, a minha frente, uma moto. Com aquelas malas de entrega de pizza. Uma de milhares que circulam por aqui. E, nela, um rapaz com calça jeans, tênis, camisa azul listrada e um belo charuto na mão. Sim, charuto, você leu bem.

Com uma das mãos (a direita) segurava o guidão da moto e com a outra sustentava faceiro seu charuto. Um charuto largo e bonito, coisa de gente importante ou que se importa. Com perna direita no asfalto dava uma baforada pela viseira que estava aberta.

Surreal a cena. E ele sempre a minha dianteira, no mesmo caminho em que eu estava, literalmente. Num farol mais adiante parou ao meu lado (esquerdo) - eu com o vidro aberto, pois fumava também, descaradamente. Entreolhamos-nos entre as fumaças. E daí um cumprimento simples. Luz verde: andei, ele virou a esquerda numa travessa anterior a minha. (Esqueci de dizer que nesse momento, da última parada, vi que estava com um fone no ouvido.)

Nossa, está aí: “Aproveitar a vida como ela se nos apresenta. É isso!”. Dei uma risada de pleno entendimento.

Naquela moto, no horário do famoso jogo Brasil e Argentina, aposto que o rapaz queria estar com os amigos numa roda de cerveja vendo a partida e gritando altos palavrões que só os homens conseguem fazer quando estão juntos. E ainda assim, entenderem-se - uns com os outros.

Mas, precisava trabalhar, trouxera a narração às orelhas e o prazer à boca. E quase estava lá. É: “O que fazer com o que se tem”.

Na certa, voltando à pizzaria de onde fazia entregas, comentaria um ou outro lance, na perfeita sensação de que estiveram juntos.

É a vida. Com escolhas certas, erradas e as que estão no meio do caminho. E é esse meio do caminho que me interessa. Quando acertamos: glória! Erramos: retomadas! E quando não se sabe o que fazer? É o mistério de como nos posicionamos diante dos acontecimentos e da vida.

Muitas vezes basta olhar à volta pegar um arsenal de sobrevivência: chocolates e DVD’s e ficar no silêncio dos gênios. Pra depois emergir com uma “sacada”genial, ou nem tanto, mas, enfim, uma saída. Em outras: pegar o telefone, falar, discutir, ouvir palavras. Em outras mais, escrever, escrever até escoar o sentimento e sobrar a razão impressa.

As encruzilhadas é que direcionam o que somos e para onde vamos. Nesses momentos temos a vida, EXATAMENTE, em nossas mãos. E é nesse átimo de tempo que podemos amar, ser amado, sofrer, ficar só, beber, beber muito, viajar. Dentro de nós. Uma cortina do tempo se abe para nossas escolhas. Uma fertilidade da vida.

Ele (o motoqueiro) poderia ter saído com raiva para o delivery e ter entregado uma pizza toda "revirada", mas não! Poderia ter caído da moto e ter tomado uma multa! Poderia não ter ido trabalhar e ficar sem pagar o cinema do dia seguinte! Poderia..... ah! Poderia. Mas, classicamente, com seu charuto e jogo ao pé do ouvido, ficou com o que tem e fez o melhor que podia. Pra continuar sendo, existido. Não desistiu de si, em que pesem as circunstâncias.

E, chegando em casa, esses novos pensamentos me enchiam de alguma alegria. Um contentamento calmo de que o que existe de fato são as opções que fazemos no nosso dia-a-dia . E com alguma lucidez e muito emoção (ou seria o inverso) sempre agimos na tentativa de fazer o que é melhor, de um jeito ou de outro. Vale o risco quando a intenção é certa. Vale a dificuldade quando se almeja felicidade. Vale a dor quando se ama. Vale o tempo quando a recompensa chega. Vale a atitude pela palavra não dita. Vale o silêncio quando há entendimento. Vale o afastamento pelo reencontro. Vale o dia pela noite com você. Vale o sacrifício da comodidade diária pelo prazer de sentir-se vivo.

Aceita um charuto? Ótima semana!

 

Henri Matisse
Open Window, Collioure , 1905 Open Window, Collioure, 1905

 

 



Escrito por K.N. (Kathy) às 14h22
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*poema ameaçador (!) de saudade*

 

Se você me quer venha depressa.

Não pense muito

Ou pense bem -

que o sentimento é uma coisa urgente.

 

Se você pensar na sua saudade

E nos seus “porquês” e “senãos’,

inevitavelmente, estará no meio do caminho

da minha saudade, que já é grande.

 

E você sabe que “lance” de saudade é coisa séria.

É vazio inexplicável

do que já conteve

um todo muito e tão amado.

 

Por isso, apresse-se amor.

Não fique nessa esteira obscura

e secreta dos que amam

e não realizam o amor.

 

Você percebe que estamos vivos

e que merecemos respirar e acontecer

nesse mundo de meu Deus!

Não suspirar de falta existente (!).

 

Se me ama e se te sou saudosa,

pelo menos nas músicas que me dedica

e na exposição camuflada de você,

é bom correr.

 

O que sinto aqui tão pertinho

é você e por você;

duas forças que, antagônicas, se justificam:

amor e saudades.

 

Enquanto ficamos na esfera das faltas

dos sorrisos, dos beijos e dos sonhos,

poderíamos estar muito bem no presente

em carne e osso.

 

A vida é pouca, mas muito boa e justa

Basta torná-la simples e viva:

pleonasmo de existir,

você entende?

 

Assim: se você “nos” quer ,

saiba que te amo e te ameaço com minha saudade.

Que é grande e proporcional ao que te sinto,

mas dolorosa quando você não está.

 

Resolva, meu bem, seus mistérios;

não me deixe nos versos de falta existencial,

porque uma rima ou outra pode não dar certo

e formar um poema de tristeza exata.

 

O tempo é um bem precioso na vida da gente

e a gente é brilhante (jóia) na vida, por Deus!

Como desprezar o que somos,

se o que somos e queremos está nas nossas mãos?

 

Avise-me de você.

Conjuguemos nossas saudades,

que serão pura paixão de reencontro.

Isso se você me quer.

 

Mas, se por acaso, todavia, entretanto,

preferir o passado pela ânsia (!) nostálgica

de, simplesmente, envelhecer com calma...

Respeito.

 

Afinal se a vida não vale

pela conjugação incessante do verbo sentir,

significa que você não está vivo em vida

e que meu sentimento é genuíno: saudades.

 

Descanse em paz, amém.

 

 

Upside Down Ada

Alex Katz (American, born 1927)



Escrito por Kathy às 10h11
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